quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Entre viagens e cambios

A palavra de ordem é cambio. Cambio de país, cambio de vida, cambio de piso, intercambio de cidades e culturas.
E para tantos e, tão atribulados, às vezes não há palavras para descrevê-los e tempo se quer para pensar neles. Mas o que se diz em terras lusas é que a seguir à tempestade vem a bonança. E eu acredito nos mais velhos, porque eles contém neles a sabedoria da experiência de quem já viveu mil anos e situações.
Neste meu intercambio cultural dos erros retirei lições, das saudades a força, e da solidão de quem recomeça aos vinte a aprendizagem forçada.
E o recomeço, e recriação da pessoa, como a phoenix que renasce das cinzas, começa em Barcelona.
Longe de tudo e todos, numa cidade repleta de segredos e sonhos, recomeça o segundo acto. Aquele que devia ter sido o primeiro. Rápido e bem, não há quem. Assim, acertei à segunda, ou assim o espero. Mas através do primeiro acto falhado voltei a abrir a gaveta das intrigas, a já conhecida, que à muito não me lembrava. Ou preferi pensar que não existia estando numa cidade nova. Mas de que adianta o cenário, se os actores são os mesmos? Mudam-se os cenários e os actores, será que muda? Na realidade penso que não, o ser humano tem bases biológicas inconfundíveis e impenetráveis. E o jogo seguro é sempre o melhor, nem sempre arriscar significa petiscar algo de bom. E no fim o melhor fica connosco, sempre. E, desta forma, se desenvolvem as relações humanas.
Estas filosofias, surgem então no desenvolvimento de um objectivo já traçado que era Barcelona. Envolvidos em arte, ruas obscuras e na magia de uma cidade que vive só pelas suas ruas e pelo seu ar.

A chegada

Três horas de viagem, em que os pensamentos abstractos superavam a ansiedade de conhecer uma nova cidade e um novo mundo. Um metro, com uma linha que naquele momento parecia a mais fácil do mundo. E música. Música no metro, pessoas a rirem... vida.
De repente houve um sentimento de felicidade, eram 23h e era como se estivéssemos a meio do dia. Saí da estação, com alguma indiferença relativamente à cidade, e em poucos momentos estava com um amigo. Um conceito já, quase, estranho. Procurávamos um sítio para jantar, e nesse contexto descobri que o MacDonald's de Barcelona desconhecia as 'tartas de manzana'. Tanto como eu desconhecer o que me reservava o futuro.
Entre muitas coisas, o próximo, reservava-me uma festa estranha, com pessoas diferentes de tudo já conhecido, entre os quais um desconhecido quase a chorar-me no colo pela sua vida triste, um Dj que serve chás de ervas urugayas e uma chilena que fica ofendidíssima por Portugueses desconhecerem a capital do seu país.

A maratona

A maratona aos monumentos, aos barrios, à cidade, desenvolve-se no dia a seguir. Em que, mesmo sem as companheiras de casa do Luís saberem, eu tomo banho na casa delas, durmo e fumo lá. O Luís diz que vai mudar de casa, eu digo-lhe que as avise. Na realidade, até hoje não sei se as avisou.
Saímos na Plaza da Catalunya, e almoçamos nas Ramblas. Maoz vegetariano é o nome do sítio, que ao longo do almoço tem como banda sonora um drum'n'bass mesclado com electro, eu gostei. Seguimos para o bairro gótico, e o incrível da cidade é que é possível que num mesmo espaço estejam recriadas vivências, e histórias diferentes, co-habitando. A sardana (tipo de dança típica da Catalunha, em que se dança contando os compassos e as notas, de forma a saber os passos, e que à partida se dividem em séries de passadas largas e curtas) à porta da Catedral, a crew que dançava em nome do marketing, a manifestação com luzes, o Homem que cantava uma ópera triste - como todas aliás, e os turistas que se misturam na luminosidade do bairro gótico com os mais freaks.
Ao anoitecer, conhecemos o Raval, as suas lojas retro e vintage, as lojas chinesas, e os restaurantes 'on'. E é possivelmente o único sítio que não tem pakis a vender cerveja na rua. Com o objectivo de experimentar algo diferente, jantámos num restaurante paquistanês, e no fundo, eu já não podia com os pakis, mas não tenho nada contra a sua cozinha, que é na realidade, excelente. Os pakis são os emplastros de Barcelona, paki que é paki está em todas, quando precisas, quando não precisas, e quando não queres mesmo que estejam.
E, finalmente, o Hard Rock Cafe e o seu brownie maravilhoso! Fui feliz por um dia.

Chego a casa e saio. Estavam à minha espera. No fim, a companhia não pode ser desfrutada como devia porque no fundo eu que estou em Barcelona, e não incomodo ninguém, sou psicopata. Melhor, uma psicopata lésbica que inventa historietas surreais. Menos mal, podia ser uma escritora de renome. Com uma mente psicótica, lésbica e cheia de imaginação, escreveria romances eróticos, histórias criminais perfeitas e livros para crianças - porque fica sempre bem, falando ao nível de marketing, e se a Madonna pode, eu também. Enfim, foi um dia que durou até às sete da manhã do dia seguinte, e terminou com um Luís que eu desconhecia. Sábio e maduro. E, por minha sorte, que me soube lembrar a tal gaveta, e em que de facto, maioritariamente se baseiam as relações humanas, e como se desenvolvem. Regámos a nossa amizade.


O último dia: estar sozinha e não sentir a solidão

O cansaço da corrida aos monumentos e das situações que parecem não me largar, deixou-me desgastada, mas a vontade de absorver mais da cidade era mais forte. Saí, desta vez sem o meu guia e caminhei entretida em pensamentos pelas ruas de Barcelona, e pelos monumentos.
Vi velhinhos a dançar, como se tivessem vinte anos, e decidi que quero ser assim quando lá chegar. E no entretanto, perdida em pensamentos, deixo-me envolver num jazz já conhecido. Marlon, o norte-americano de New Orleans. Músico que viaja para poder mostrar a sua arte.
Sento-me para um cigarro, envolvida por ele. Pergunta-me se quero ouvir algo em especial, e toca-me George Michael. Responde a alguns pedidos das poucas pessoas que passam e senta-se para um cigarro. Entre dois dedos de conversa, e jazz, trocamos impressões, e em dez minutos conheço mais de um homem do que de pessoas que digo conhecer à tempos.
O tempo passa e espera-me o último comboio rumo a Valencia.
Parto com a certeza de voltar, uma amizade regada e a certeza de que a seguir à tempestade só pode vir a bonança.






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